"A NOSSA LINGUAGEM CRIA O MUNDO."

domingo, 11 de maio de 2014

O FIM DE NÓS

O mundo está acabando! O mundo está acabando para nós, o tempo está começando para eles. A vida não guardou surpresas, viver era previsível, morrer era certo desde o início. Nós estamos acabando!
A vida acontece para onde estamos indo e sempre morremos antes de chegar. Eu queria começar, mas o mundo está acabando. Já somos velhos para saber que começar não é o suficiente, o mundo vai acabar. Não adiantam tardes de domingo, sorrisos no travesseiro, o mundo vai acabar.
Passamos a não começar, mas também não sabemos terminar, somos meio, meio tudo no meio de tudo e o mundo acaba meio que de repente (com a gente). 

Permaneço aqui, onde nada existe, mas não acaba, danço para não ficar imóvel, perco o ritmo: o mundo vai acabar (no meio de sonhos frios, congelados pelo tempo que passou, no meio da realidade que não ousou ser nós). 

quinta-feira, 1 de maio de 2014

VAMOS TRATAR DESSE ASSUNTO

Foi em um dia normal, nem lembro se fazia sol ou chuva, só lembro que a gente conversou, talvez eu só tenha ouvido você conversar com pessoas que estavam comigo. Ouvir você fez o dia ficar diferente e não era mais normal ouvir você falar, porque o meu coração batia diferente, mudou o ritmo dos meus pensamentos e eu ficava em silêncio, porque queria prestar atenção na sua conversa. A partir desse dia você tornou-se o meu assunto, queria falar de você com você quando estávamos perto e queria falar de você com todo mundo quando estávamos longe.
O assunto foi acabando. Eu queria contar que andamos de mãos dadas pela cidade e que você havia me salvado de um ataque de pombos na Tiradentes e que era bonito ver o seu cabelo bagunçado de manhã e que eu não ficava mais mal humorada a noite. A falta da existência a dois foi deixando tudo pela metade, coração partido ao meio, diálogos interrompidos por telefonemas não atendidos e encontros sem reticências, sem mãos dadas, ataques de bombos, cabelo baguçado e bom humor. 
Eu não queria deixar o mundo em que eu gostava de ouvir você falar, eu gostava de falar de você, eu ficava feliz quando convivíamos juntos e era bom sentir borboletas no estômago.

Um dia percebi que o nosso mundo estava dentro de mim e foi um dia estranho, porque o meu mundo não existia em você.

domingo, 27 de abril de 2014

HOJE É UM DIA TIPICAMENTE ESTRANHO

            Não quero ser sozinha no mundo em que sou estranha, é sempre melhor achar algum estranho para conversar. Não sei dizer por que me tornei estranha, nem quando isso aconteceu, se foi um dia em que não me reconheceram porque havia mudado o cabelo ou quando não me reconheci porque mudei algo do lado de dentro. 
            Tem aqueles dias que fico cheia de tudo, tão cheia que tiro tudo de dentro de mim, as cartas de amores partidos, aqueles que estavam esquecidos, relembro dos amados e desalmados, escrevo para todos eles e depois mastigo cada folha para deixar tudo em seu devido lugar. A gente procura novidade e demora a acostumar com a nova visita, que quando se torna conhecida vai embora e deixa um vazio estranho e você se enche de saudades.
            Amigos vêm e vão com a mesma intensidade que ninguém nunca quis conselhos, sermões, eu disse isso e aquilo, a gente só quer um ombro amigo, ombros que não falem, ombros que enxuguem lágrimas. Eles sempre acabam falando em momentos que ficar quieto é a melhor opção, mas eles não são estranhos e falam porque são sinceros e diretos, amigos. Até parece estranho tanta intimidade, parece cruel tanta franqueza.
            Vamos para a rua procurar a indiferença que acontece no vai e vem da normalidade. Esperar o ônibus ao lado da senhora que não te dá bom dia, ser atropelada pelo ciclista que sai te xingando e logo é atropelado por um carro, desviar do mendigo que dorme com tranquilidade na calçada, enquanto você entra no prédio e o porteiro aperta o botão do elevador para você (que não sabe o nome do porteiro, nem ele o seu).
            Hoje é um dia tipicamente estranho, cheio de ideias, cheio de sonhos, cheio de amores e eu mais cheia de mim, enquanto quero que os amigos ignorem as lágrimas que caem em seus ombros, apenas se movam ao som da música de sábado à noite e sejamos todos estranhos de nós mesmos, sem precisar reconhecer os sentimentos que entram sem falar “podemos nos conhecer?”. 

sexta-feira, 18 de abril de 2014

AINDA TENTAMOS RESPONDER AQUELA PERGUNTA DO ORKUT: QUEM SOU EU?



Dizem que somos perdidos, que não sabemos para onde vamos, mas nós sabemos o caminho da casa dos nossos pais. Dizem que não sabemos dar valor as coisas, mas valorizamos muito uma internet banda larga. Sabemos como as coisas eram difíceis naquela época em que a internet era discada e todo mundo tinha o seu jeitinho para acessar o Orkut, escondido dos pais antes da meia noite.

Não somos nem um pouco perdidos só porque não temos a estabilidade de um cargo público, ainda não temos filhos e não precisamos saber cozinhar. Afinal, ficamos emocionados com uma bandeja de fast food.

Tem uma geração aí falando da nossa geração. Ela não tem os turcos da Nouvelle Vague e nem os brasileiros Tropicalistas do festival de 67. Temos o pessoal do Mumblecore. O encantador Frances Ha, em que Greta Gerwig, a musa do coletivo, interpreta uma jovem com 27 anos, que faz da vida uma bela música no clima de David Bowie e o melhor, Frances dança a música. De um lado a leveza dos sonhos e do outro a pressão das convenções sociais do século passado.


Também, temos Lena Dunham, a criadora e protagonista de Girls. Hanna sonha em ser escritora, mas diante das pressões sociais é sufocada pelos padrões, que limitam seu fluxo criativo. Antes do seriado, com Tiny Furniture, Dunham já havia exposto na tela, Aura, uma jovem recém-formada em Cinema que sem emprego e sem rumo volta para a casa da mãe. A personagem entra num conflito entre se adaptar a vida adulta e competir com a irmã adolescente.

Temos o Matheus Souza, todos citariam o premiado “Apenas um Fim”, mas prefiro Vendemos Cadeiras, seriado com Wagner Santisteban, Gregório Duviver e Clarice Falcão. Três jovens em conflito em meio aos sonhos e as vendas da loja de cadeiras. Eliézer escreveu seu primeiro livro aos doze anos para conquistar uma garota, dirigiu um filme e vive dessas lembranças, desejando que elas voltem a fazer parte de algum presente futuro. Fábio Jr nunca beijou uma mulher que estivesse acordada e é rejeitado pela família que tem uma loja de sucesso que vende sofás. Diana é uma órfã adotada por 63 famílias diferentes, devolvida ao orfanato 42 vezes por justa causa e finalmente adotada por Ferreira, o dono da loja de cadeiras. Elieser e Fábio Junior apaixonam-se por Diana, ela gosta de meninas e eles decidem ser amigos.


Somos um pouco instáveis, não nego, estar dentro de nossas cabeças não é para qualquer um, por isso às vezes ficamos melancólicos. Também temos tendências artísticas, queremos ter uma banda, escrever um livro, roteirizar, dirigir, produzir e atuar em um filme, deixar nossos nomes na calçada da fama da Rua Augusta. Somos a geração criada dentro de casa que é bombardeada pela tecnologia consumida pelos pais, para que os filhos não lhe causem preocupações. Então, criamos mundos virtuais, relacionamentos complicados como distrações e expomos nossas insatisfações nas redes sociais."

Aos 26 começo a me preocupar com os próximos anos, não será muito diferente de hoje. Por um lado gosto da ideia. Tem muitas coisas que não quero mudar, mas tenho aquele medo de estar com a síndrome de Peter Pan. Deve ser a minha crise da idade, os mais velhos sempre falavam que estavam na crise da idade, acho que eles não são mais velhos do que eu agora.

Entre tantas dúvidas, lá no fundo tenho consciência de que estamos certos de nossas incertezas. Depois que consumimos cultura pop pesada durante toda a adolescência, somos forçados a entender que a vida não é um filme com fórmula hollywoodiana. É difícil, mas é bom, não precisamos seguir um roteiro. Precisamos viver o imediato, mesmo que eu, você e o Matheus Souza não tenhamos a menor ideia do que estamos fazendo com nossas vidas.

sábado, 12 de abril de 2014

E SE EU FOSSE FAMOSA?

 
Você poderia falar sobre o seu processo criativo?
É um processo que exige criatividade.
 
E como você escreve?
Eu digito o que penso e sinto (sinto muito por quem não pensa o que digita).
 
Sobre o que você pensa?
Penso coisas que vem na minha cabeça.

No que você se inspira?
No que eu conheço.
 
 
Quais são suas obras preferidas da literatura brasileira?
A coluna da Folha de São Paulo do Gregorio Duvivier, o roteiro de Vendemos Cadeiras do Matheus Souza e o site Ornitorrinco.  

Tem algum cânone para colocar nessa lista?
Sim, mas não preciso falar deles, já são cânones, é claro que todo mundo vai dizer que gosta, é claro que isso não significa que realmente gostem.  

O que você acha da facilidade de publicações na internet, como os blogs?
Acho uma pós-modernidade híbrida de fácil publicação.  

Como você descreveria a sua produção?
Produzida por mim.  

O que você gostaria que estivesse escrito em sua lápide?
Não fui Camões, mas ele foi Vaz.  

Como você quer terminar isso aqui?
O link abaixo é melhor do que isso que você está lendo: