"A NOSSA LINGUAGEM CRIA O MUNDO."

terça-feira, 18 de novembro de 2014

ALÉM DO PONTO DE CAIO FERNANDO ABREU


 
            Chovia, chovia, chovia e eu ia indo por dentro da chuva ao encontro dele, sem guarda-chuva nem nada (...). Assim chego em Além do Ponto, entre tantos outros contos de Morangos Mofados. Sempre estou na chuva, sem guarda-chuva nem nada, também estou embaixo do sol quente, aquele que queima e deixa meu nariz vermelho, o frio também deixa o nariz vermelho, combinando com as bochechas envergonhadas quando bato na sua porta.

            O personagem de Caio Fernando Abreu é quem ama, que não se protege, torna-se vulnerável e ansioso, enquanto pensa em bater na porta, porque o amor convidou para dar uma passadinha por lá, quem sabe tomam um café, conversam embaraçados, desembaraçam e assistem um filme, enquanto a roupa seca, perdem algumas cenas.

            Teve uma hora que eu podia ter tomado um taxi, mas não era muito longe (...). Vive-se o percurso, o frio na barriga, a espera, a incerteza e a esperança de bater na porta, ela se abre com um sorriso do outro lado: entre logo, está muito frio aí fora.   
 
 Não queria que ele pensasse que eu andava bebendo, e eu andava, todo dia um bom pretexto, e fui pensando também que ele ia pensar que eu andava sem dinheiro, chegando a pé naquela chuva toda, e eu andava, estômago dolorido de fome, e eu não queria que ele pensasse que eu andasse insone, e eu andava, roxas olheiras, teria que ter cuidado com o lábio inferior ao sorrir, se sorrisse, e quase certamente sim, quando o encontrasse, para que não visse o dente quebrado e pensasse que eu andava relaxando (...) 
 
            A gente quer ser o melhor, quer ser a melhor parte de nós, mas não dá para ser só o melhor, a gente não é só uma parte, tem as inseguranças, o dente quebrado que surge no sorriso, não dá para esconder, a gente sorri. Bagagem que todo mundo carrega cheia da vida, de morte, a espera do próximo trem para embarcar, do passageiro que irá sentar ao lado e comentar que a mala é bonita - mas já está fora de moda – não importa, continua bonita.

            Tudo ficara muito confuso, ideias misturadas, tremores, água de chuva e lama e conhaque no meu corpo sujo gasto exausto batendo feito louco naquela porta que não abria, era tudo um engano, eu continuava batendo e continuava chovendo sem parar, mas eu não ia mais indo por dentro da chuva, pelo meio da cidade, eu só estava parado naquela porta fazia muito tempo (...)

            Vou continuar parada naquela porta, a chuva interditou o caminho de volta, nem queria voltar mesmo, queria bater na porta, queria entrar, dizer que senti saudades, pedir desculpas pela lama, posso usar o banheiro? Claro, pegue essa toalha, tome um banho, o chuveiro está quentinho, vou fazer um café enquanto isso. Continuo batendo na porta, se estiver dormindo vai demorar para atender, tem o sono pesado, pode estar dormindo, não quero incomodar, vou bater de leve.

sábado, 18 de outubro de 2014

SEMANA CURITIBA LÊ (Produção)

 


Percepção e Representação

 
            Busquei em todas as minhas referências, o que eu sabia, nas ciências e até nas lendas curitibanas. Ele não existia. Havia desconstruído o meu olhar, não nos identificávamos. Tinha olhos grandes, eram verdes, mas quase não se via, havia muita água.       
            Perguntei seu nome, disse que não importava, não queria semantizar nosso contato. Perguntei se queria conversar, achava inútil. Eu queria respostas, queria entende-lo e encontrar seu lugar no mundo, eu saberia qual era o lugar em que nunca estive.
            Ele não me disse nada, teria que pesquisar. O Google me deu algumas imagens semelhantes, sempre faltava alguma coisa, faltava a corcunda, faltavam os dedos nervosos e faltava a necessidade de vida. Os livros descreviam seres mitológicos que até lembravam, mas nunca teriam o encanto de tornar-se real em meu mundo.
            Desisti de saber como ele era e conclui o que ele se tornou no lugar em que vivia em mim.

  
Instruções para amar
 

            Encontre a pessoa certa, aquela que você acha que é certa e todo mundo vai achar que é errada, mas o que importa é a sua opinião.
            Tenha momentos felizes, leve a pessoa certa a todos os seus lugares favoritos, quando a pessoa certa terminar com você, seus lugares favoritos vão ser os lugares mais tristes sem a pessoa certa.
            Conte tudo para a pessoa certa, ouça tudo que ela tem a dizer. Quando estiver sem ela escreva todas as histórias que não deram certo, ouça a música que mais poderia ter dado certo como trilha sonora do seu romance que deu errado e morra de amor, só para perceber que a pessoa certa sempre foi errada.


 Lista de seres 

Incríveis (concordam comigo)
Insuportáveis (não concordam comigo)
Outras (nunca falei com elas)
Eu (insuportável).

 

Exercícios elaborados na Minioficina de Criação Literária, ministrada por Monica Berger, na Semana Curitiba Lê. 

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

MISE-EN-SCÈNE


            O mundo me incomoda, mas não é o mundo, eu me incomodo, mas não sou eu. Estou cheia, não sei se é felicidade ou sofrimento. São dois sintomas invisíveis, indizíveis, analiso e me decomponho. Olho antes de me reconhecer, percebo uma semantização, tudo implica um denominar, que implica em um definir, que não me revela na própria essência. Não sou palavra, sou o que me olha, o que me afeta, entre o mundo vivido e o mundo imaginado, sou realidade. O mise-en-discours transforma o dito, discursa e cria minhas ações no mundo. Exponho-me independente da finalidade, amplio os significados, quando não digo, não faço, quando faço digo certo ou errado. Passa, estou em fluxo, apreendo o mundo pelo sentir, pela cidade, no ônibus ou em alguma fila de consumo, estou na presença de tantos, a atenção é distraída, a consciência está no prazer vinculante do que não me pertence, o desejo é a falta. Como me falta aquele dia todos os dias, como me falta morrer de felicidade, ter certeza que não é sofrimento pela falta do sentir do sentir, sentir em ato, perceber e ser presença. O mundo não é o que me revela pela janela da casa, pela janela do meu vazio, não há realidade, é um deixar-se levar, causa e efeito, fórmulas do sensível socializar e de socializar o sensível, estetização da vida. O mundo é vinculante, presentificação, a maneira que nos tornamos presentes em nós, nos tornamos próximos, um mundo bonito, distração de quem sente, sensação de vida, performática, dinâmica, relacional e estética.

domingo, 17 de agosto de 2014

Copos e Corpos

 
            Não! Não era assim que havia pensado sua vida, talvez nunca tivesse pensado a sua vida e isso deixava confuso, será que teria chego onde pensou? Nunca saberia, não tinha planejado, deixava a vida levar, deixava os sentimentos levar para aquele momento. Bagunça! Como chegou a quebrar todos os copos? Agora a cozinha estava perigosa, cacos por toda a cerâmica e não podia se acalmar, não podia servir água com açúcar. Como dizia a música, todo copo vazio é cheio de ar, acho que é mais ou menos isso ou exatamente isso, algo assim com ritmo de poesia. Tanto fazia, não tinha mais copos, perdeu o ar. Sufocou!

            Planejou o suicídio, havia planejado todas as vezes que havia acabado. Se acabava! Os amigos não tinham contato, achavam que tinha morrido mesmo, procuravam o seu nome nas notícias sangrentas, tinha sangue na toalha de banho. Desastre com a lâmina de barbear. Não gostava de fazer a barba. Sempre cortava o rosto quando chegava no bigode, pena que não tinha nenhuma veia por ali, pelo menos não sabia se tinha, sempre péssimo em se localizar.
 
            Onde estava a autoestima? No mar, no mar sentia alguma alegria, mesmo imaginando-se com pedras nos bolsos caminhando para o fundo, as ondas empurravam para a areia e podia tomar uma água de coco, pensando que a vida seria boa, se soubesse nadar. Nada! Dizia o pai ao lado para o filho que aprendia a respirar na água, nada, menino. Nada! Dizia para si mesmo, nada, foi o que restou, menos que um copo vazio. Sufocou!

domingo, 13 de julho de 2014

NÃO CONFIE EM QUEM NÃO GOSTA DE BATATA FRITA - PARTE 2


            Mais uma vez estamos aqui, a mesma mesa perto da janela. Eu gosto desse lugar, quando falta assunto ou ficamos constrangidos com o assunto, dá pra olhar pra fora e fingir apreciar o balanço das folhas daquela árvore. Ela lembra a minha infância. Tinha uma assim lá em casa. Meu pai cortou, porque caia muitas folhas na calçada. Ele odiava folhas na calçada. Eu até que gostava, criava um ar melancólico, a natureza sobre o cimento. Ele nunca me entendeu. Ninguém nunca se entende, nós aqui, sempre nessa mesa tentando compreender porque ainda persistimos. Talvez a gente venha aqui por causa do hambúrguer, esse double é a melhor coisa que fizeram e o garçom já me conhece e sabe que não como queijo e salada, fica mais fácil, sem olhares inconformados ao anotar meu pedido. 
            Vamos chamar o garçom? Estou com fome! Não comi direito durante o dia, confesso que estava tensa com esse encontro. Sempre estou tensa quando estamos juntos, sempre acontece alguma coisa que me dá razão por ter estado tensa o tempo todo.
            Garçom - Já vão pedir?                                                                                         
            Ele – Hambúrguer completo pra mim.
            Ela - Sem queijo e salada pra mim.
            Garçom - Com batata frita?
            Ela - Sim.
            Garçom – Pelo menos isso, todo mundo gosta de batata frita, até as estranhas que não comem queijo.
            Ela – Mussolini não gostava de batata frita. Talvez Hitler não gostasse de queijo. Você ia falar assim com eles?
            Garçom – Já trago o pedido.
            Sabia que tinha um motivo para ter estado tensa o dia todo. Trocaram o garçom. Como eu odeio mudanças. Elas acontecem sem que estejamos preparados.  Eu não estava preparada para deixar de gostar de você. Você era a minha música preferida, o coração conhecia o ritmo e eu só sabia dançar com você. Ok, nunca fui uma boa dançarina, nem você. Quando a gente encontra a música preferida ouvimos tantas vezes que chega aquele momento que enjoamos. Começamos a ouvir outras músicas e achar mais interessante. Até ouvimos a velha música preferida, mas é só para relembrar do tempo que ela nos fazia dançar. Qual música eu gostaria de ser pra você? Algum clássico que nunca sai de moda. Mas essas bandas todo mundo ouve e com o tempo se tornam tão previsíveis. Na verdade queria ser a música de uma banda que quase ninguém conhece e um dia você resolve ir ao show, porque não tem nenhum filme bom passando no cinema e quando você ouve aquela música tem certeza que passou a vida em busca daquele som e quando volta pra casa ela não sai da sua cabeça e você vai procurar a banda no Facebook e descobre que vocês têm muito em comum e baixa o cd inteiro no seu ipod e não para de ouvir, na ida ao trabalho, na volta para casa, no banho, antes de dormir, ao acordar e nunca, nunca vai enjoar, mesmo quando estiver ouvindo Beatles, vai sentir saudades de quando ouviu a música da banda desconhecida pela primeira vez. Você vai ser sempre a música da banda desconhecida pra mim, mesmo que agora eu queira ouvir Ramones.
            Garçom – Estão servidos.
            Ela – Tem queijo no meu hambúrguer.
            Garçom – Vou pedir pra trocar.
            Posso ver o que você está lendo? Não conheço. Não sou muito fã desse tipo de leitura. Ficção é o que me encanta. Meu professor sempre dizia, a mentira é sentida por quem a inventa. Literatura é assim, uma mentira que contamos pra expressar o que sentimos. A magia está em entender as entrelinhas, a verdade oculta na invenção do novo. Estou escrevendo um conto, você não vai ler mesmo, posso te confessar, é sobre nós, somos dois heróis de guerra, disputando o amor por uma enfermeira, após sermos atingidos por uma granada. Como nos tornamos rivais?
            Garçom – Sem queijo, certo?
            Ela – Obrigada.
            É difícil admitir que não gosto de queijo e sempre deixam o processo mais complicado. É difícil admitir que nunca mais teremos a primeira ligação cheia de expectativa, esperando o primeiro convite para um encontro. Nunca mais teremos o primeiro encontro cheio de ansiedade, torcendo para que tenhamos o segundo. É difícil deixar de amar por livre e espontânea vontade, só porque nunca haverá mais a primeira vez, você já se decepcionou com tudo e cansou de terceiras, quartas e infinitas vezes em que não deu certo. A primeira vez que estivemos aqui não consegui sentir o gosto do hambúrguer, estava tão nervosa, agora eu sinto o gosto da costela, sempre penso em pedir de alcatra, mas deixo para a próxima vez, eu sempre deixo um pretexto para voltar com você. Quem sabe da próxima vez eu peça o hambúrguer de alcatra.