"A NOSSA LINGUAGEM CRIA O MUNDO."

sábado, 18 de fevereiro de 2012

AS MULHERES DO 6º ANDAR



Em “As mulheres do 6º andar”, Philippe Le Guay, faz uso do estereótipo espanhol (onde tudo é muito alegre e intenso), para dar vida a uma obra otimista sobre a vida. Para isso o diretor conta com um grande elenco que merece destaque, Fabrice Luchini (“Potiche – Esposa Troféu”), Carmem Maura (“Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos”), Lola Dueñas (“Volver”) e Natalia Verbeke (“O filho da Noiva”).
O grande elenco vive personagens ambientados na década de 60, o que pode fazer com que o público relacione o filme com o também em cartaz “The Help”, pois ambos contam histórias de empregadas na década de 60, com a diferença territorial, levando a conflitos distintos, já que o primeiro trata das empregadas espanholas na França e o segundo das empregadas negras nos Estados Unidos da América, países que viviam realidades bem diferentes ocasionadas pela Segunda Guerra Mundial.
“As mulheres do 6º andar” é uma comédia social, que critica a vida burguesa, que se esforça tanto por conforto e imagem estruturada que se esquece da alegria de viver, pois passam a representar o tempo todo, mesmo que inconscientemente.
O patrão conhece o 6º andar, onde as empregadas vivem em “chambres de bonne”, os quartinhos no sótão dos edifícios parisienses e ali ele se encanta com a vida que existe naquele andar.  Mesmo diante das dificuldades as espanholas vivem como podem e felizes com o que dá. Ele decide se instalar em um quartinho e se sente bem pela primeira vez na vida, pois mesmo sendo um espaço limitado, é um espaço só dele, sem ninguém para interferir, sem regras para serem cumpridas por um bem social.
É diante dessa perspectiva que o patrão se apaixona pela empregada, mas ela foge e como em um conto de fadas ele vai atrás dela, mesmo que três anos depois, como uma metáfora de que se amor realmente existir não há tempo que o mate. Como dito no inicio, é uma visão otimista sobre a vida, sentimentos e maneira de encarar a vida.
Um filme que demonstra como a vida pode ser alegre se você deixar, como um amor pode dar certo mesmo com tantas diferenças e também como há sempre alguém para lhe ajudar e amenizar os momentos difíceis.
Não é só de filme com final infeliz que o pós-modernismo vive.

FICHA TÉCNICA


Duração: 104 min.
Origem: França
Estreia: 10 de Fevereiro de 2012
Direção: Philippe Le Guay
Roteiro: Philippe Le Guay e Jérôme Tonnerre
Distribuidora: Vinny Filmes
Censura: 12 anos
Ano: 2010

HISTÓRIAS CRUZADAS



Histórias Cruzadas (The Help), dirigido e escrito por Tate Taylor, baseado na obra de Kathryn Stockett, tem Mississipi dos anos 60 como cenário para uma história de superação e vitória, pelo menos interior.
O filme usa a década de 60 para expressar toda a vida de mentira criada pelos americanos em um período pós-guerra, onde eles necessitavam expressar felicidade (artificial) e “organização” social. O filme demonstra muito bem isso nos figurinos (penteados e perucas), que representam a artificialidade das personagens.
As empregadas negras são as personagens verdadeiras da narrativa, são elas que sentem, cultivam sofrimento e alegria, são responsáveis pela humanização da obra. Mas não vamos ser racistas, existem duas personagens que não pertencem ao universo das empregadas que também são humanas, Skeeter, uma jovem recém formada que aspira ser uma grande escritora e também sofre preconceito, por ser independente e solteira e Célia, uma recém casada que por ter engravidado antes do casamento é excluída pelas outras jovens casadas da cidade. Logo, percebemos que brancos ou negros, esses personagens sofrem preconceitos e irão se juntar contra a exclusão que existe, mesmo que por razões distintas.
O tema central da narrativa é o racismo, a luta pelos direitos humanos e como as empregadas negras eram submetidas a viver em uma época tão intolerante. Inicialmente, é isso que a sinopse tem a nos dizer, mas a história vai além, é um daqueles filmes que não te deixa sair da sala do cinema como havia entrado, te faz pensar sobre você mesmo e sobre o que você está fazendo da sua vida, está lutando pelos seus sonhos ou deixou que eles morressem?
São sonhos, esperanças e conquistas que vemos em Histórias Cruzadas. Uma jovem que sonha em ser escritora, empregadas que mesmo sendo destratadas conseguem sorrir e acreditar que dias melhores virão, uma esposa fútil que consegue tornar-se mantenedora do lar, mulheres que precisam superar obstáculos que a sociedade impõe, alguns menores, outros maiores, mas para que julgar o tamanho da superação? O maior problema é aquele vivido pelo sujeito.
Abileen, a empregada que sente que realizou o sonho do filho morto, que dizia que a família teria um escritor, não imaginava que a escritora seria ela e termina o filme percorrendo um longo caminho, caminho que ela tem que conquistar, pelo qual caminhamos todos os dias e que só acaba com a morte, que pode ser a convencional ou a interior, sendo a segunda a mais sofrida. 


FICHA TÉCNICA


Diretor: Tate Taylor
Elenco: Emma Stone, Bryce Dallas Howard, Mike Vogel, Allison Janney, Viola Davis, Ahna O'Reilly, Octavia Spencer, Jessica Chastain, Anna Camp, Eleanor Henry, Emma Henry, Chris Lowell.
Roteiro: Tate Taylor, baseado na obra de Kathryn Stockett
Fotografia: Stephen Goldblatt
Trilha Sonora: Thomas Newman
Duração: 146 min.
Ano: 2011
País: EUA
Gênero: Drama
Classificação: 14 anos

sábado, 21 de janeiro de 2012

2 COELHOS



Não costumo escrever em primeira pessoa, mas dessa vez vou abrir uma exceção, pois acredito que a análise pede algo mais pessoal, algo que debata o sentimento do espectador e não o sentimento que a critica anda construindo diante do filme “2 Coelhos”, de Afonso Poyart.
“Ele não é uma história de amor, não é só ação. Se pudesse classificá-lo, seria como um filme nerd”, explica a atriz Alessandra Negrini. “A gente queria fazer um videogame de verdade", completa o ator Fernando Alves Pinto.
Diante desses comentários é possível perceber o conceito que deveria aparecer na tela do cinema, mas o que vemos é apenas uma tentativa, não que isso seja ruim, pois é experimentando que podemos evoluir. Andam dizendo por aí que se trata de um filme diferente de tudo o que é feito no Brasil, Negrini, que interpreta Julia, fez uma afirmação do gênero em uma entrevista. O que me parece é que o roteirista e, também, diretor, teve a idéia de fazer um filme hibrido e acabou optando por uma narrativa igual a muitas que vemos no cinema brasileiro, corrupção e assassinato, ou o inverso, fez um roteiro igual a muita coisa que já vimos por aí e para dar um ar pós-moderno inseriu um grafismo aqui, um universo paralelo ali.
Confesso que quando o filme terminou fiz o seguinte questionamento: “E agora, eu gostei ou não do filme?” Até agora estou inquieta com essa questão que não sei responder com exatidão. Odeio ver alguma publicidade, ler alguma critica ou ter contato com qualquer coisa que me dê algum repertório do filme que irei assistir, pois isso acaba causando frustração, você começa a imaginar a obra na sua mente que não é a real, já que você não pode criar imagem e semelhança do filme que irá assistir. Infelizmente, vi muita coisa de “2 Coelhos”, o que causou uma quebra na expectativa.
Acredito que seja interessante citar as falhas que existem no roteiro, uma apresentação longuíssima de cada personagem, tudo com narração em off. Vamos combinar que isso fica chato depois dos 5 minutos. Mas, também, tem o ponto forte de não entregar toda a situação e aos poucos fazer ligações entre os personagens.
Falta uma proximidade dos personagens com o espectador, não temos a chance de criar vínculos com os mesmos, já que não há um convívio com o interior deles, até para não nos dar pistas do que está por vir. A construção do personagem Edgar é feita de tal maneira que nos dá a impressão de que se trata de um playboy atrás de sexo e grana. Quando ele tem seu trágico fim não comove muito o público, que só depois descobre que o seu plano era heróico (assistam ao filme e descubram porque o personagem tem o conceito de herói).
A personagem Luiza deve ganhar uma atenção especial, inicia como uma mulher poderosa, promotora de justiça, corrupta e calculista. Depois que a conhecemos no mundo de Edgar ela se transforma (a transformação, inclusive, surge em seu figurino, despojado, diferente do anterior) em uma menina apaixonada, que arquitetou todo um plano para viver o seu amor, livre, em um lugar em que fosse possível encontrar a felicidade, uma personagem redonda, que representa o lado forte e sonhador da mulher pós moderna. As feministas mais radicais podem dizer que ela é representada com preconceito, uma mulher fraca, já que no final dá vazão aos sentimentos, mas porque a mulher tem que sempre demonstrar-se fria para ter seu lugar? Amamos sim, até aquelas que parecem extremamente racionais.
Enfim, não fui ao cinema com a pretensão de ver um filme filosófico, ao contrário, estava disposta a ver muita ação, efeitos especiais, algo muito hibrido, com tiroteios e universos paralelos. Mas acho que camuflaram o filme com uma cena de vídeo-game e uma síndrome do pânico que levava Luiza a um mundo surreal, nada além disso.
O filme vale pela tentativa, não foi ousado e assim vai conquistar um público comercial, com certeza. Até eu gostei depois dos primeiros quarenta minutos.


FICHA TÉCNICA


Brasil , 2011 - 106 min.
Ação / Policial
Direção: Afonso Poyart

Roteiro: Afonso Poyart

Elenco: Alessandra Negrini, Caco Ciocler, Fernando Alves Pinto, Marat Descartes, Neco Vila Lobos, Roberto Marchese, Norival Rizzo, Thogun, Thaíde, Yoram Blaschkauer, Robson Nunes, Aldine Muller

sábado, 17 de dezembro de 2011

A CHAVE DE SARAH


SINOPSE
Julia (Kristin Scott Thomas) é uma jornalista que vê a sua vida envolvida com a de uma garota chamada Sarah: uma menina que teve a família destruída por nazistas, na maior perseguição de judeus na França. Às vezes o passado pode desvendar o futuro.
 

Elle s'appelait Sarah (2010), longa de Gilles Paquet-Brenner adaptado do best-seller de Tatiana de Rosnay, ilustra o episódio do Velódromo em Paris, que entre os dias 16 e 17 de julho de 1942, foi cenário do sofrimento de cerca de 13.000 judeus, que foram obrigados a sobreviverem em condições desumanas até serem conduzidos ao campo (em condições não menos piores).
“A Chave de Sarah” poderia ser mais um filme que retrata o sofrimento de uma sociedade causado pelos nazistas, mas existe um diferencial, uma chave. O sofrimento de Sarah que é enorme consegue se intensificar com a tentativa de salvar o irmão, que é frustrada por causa da chave que ela carrega e que deveria ter voltado para o seu lugar.
Nesse filme os vilões não são os alemães, mas os franceses que também perseguiram os judeus. Somos levados a uma suspensão da realidade tão grande que é necessária a alternância de momentos da história, transitando entre o período da Segunda Guerra Mundial e os dias atuais, usando como pretexto a história de uma jornalista que se torna obcecada pelo caso da família Starzynski.
A jornalista desempenha o papel de nos revelar fatos que a história desconhecia. Até o momento que Sarah busca colocar a chave em seu devido lugar a narrativa desvenda facilmente o que aconteceu com a menina e seus familiares, porém depois disso são as investigações de Julia que nos revelam o futuro da menina que foi condenada pelos nazistas e pelo o amor ao irmão.
Observamos que em dois momentos a seguinte frase é citada: “Somos produto de nossa história”. Ao fim do filme é isso que percebemos, o roteiro vai além das angustias de Sarah, revelando toda a angústia que herdamos de nossos antepassados. A melancolia da Segunda Guerra ainda assombra a sociedade "Mundial", brasileiros que tiveram seus antepassados forçados a deixar a polônia, americanos que são filhos e netos de judeus obrigados a deixar a Alemanha, etc. Assim vai sendo descoberto o rastro de uma atrocidade que não pode ser apagado da história de nossas vidas.

FICHA TÉCNICA


Gênero: Drama e Guerra
Duração: 111 min.
Origem: França
Direção: Gilles Paquet-Brenner
Roteiro: Gilles Paquet-Brenner e Serge Joncour
Distribuidora: Imagem Filmes
Censura: 14 anos
Ano: 2010

domingo, 4 de dezembro de 2011

OS NOMES DAS PESSOAS


SINOPSE
Bahia Benmahmoud (Sara Forestier) é uma jovem tão comprometida com seus ideais que não se importa nem um pouco de transar com seus opositores, no intuito de convertê-los à sua visão. Ela costuma ser bem sucedida em suas investidas, até o dia em que conhece Arthur Martin (Jacques Gamblin).


Le Nom des Gens, no Brasil chamado de Os Nomes do Amor, tem como tradução ao pé da letra, Os Nomes das Pessoas, que usa o nome do individuo para chamar a atenção para a identidade de cada um. Estamos falando do filme de Michel Leclerc, que participou do Festival Varilux de Cinema Francês no mês de junho desse ano (2011) e agora no mês de novembro tem estréia no circuito nacional.
Ao nos depararmos com a sinopse é possível imaginarmos uma simples comédia romântica regada a sexo. Existe romance e também existe sexo, mas nada que chegue a ser o clímax da história. De uma maneira diferente do que estamos habituados a ver nas telas dos cinemas e que vem se tornando até mesmo previsível para quem gosta de filmes que tratam de estudos culturais Le Nom des Gens mostra todos os conflitos políticos, todos os traumas de uma sociedade pós guerra e a crise de identidade de um povo que precisa criar sua própria história. Leclerc representa tudo isso de uma forma cômica, usando dos recursos desse gênero para introduzir o público em uma história um tanto maluca, mas que retrata o real.
O interessante é retratar o real por meio do recurso que o cinema tem, de iludir, de tirar o sujeito de sua zona de conforto, levando-o ao mundo criado. Desse modo, existem cenas insanas, como a protagonista esquecer-se de vestir-se para sair, mas tudo sendo representado de uma maneira inteligente usando de metáforas.
Vemos um cinema francês contemporâneo, não mais com aquele clima denso que também encanta, mas algo leve que pode sair do círculo de intelectuais e atingir o público em geral, que não deixa de ter uma reflexão sobre a sociedade, a situação atual da França, a critica aos preconceitos, ao atual presidente francês Sarkozy e as crises existenciais de franceses que tiveram avôs e pais que sofreram e morreram no cenário da Segunda Guerra Mundial e que podem optar por duas escolhas: livrar-se da herança histórica (que muitas vezes é apenas sufocada) ou tornar-se um defensor de sua história.
Leclerc usa do exagero (recurso cômico) para nos proporcionar uma obra que encanta e nos faz pensar. Deixa a mensagem de paz resgatando o lema dos anos 60: “Não faça guerra, faça amor”, por meio da personagem principal que vive o lema de uma forma radical, mas que deixa sua mensagem, deixando de lado o conservadorismo e nos fazendo pensar até que ponto obedecer à ordem é necessário.
É cogente entender a atual situação política da França para não deixar passar batida a presença do candidato socialista à presidência da República Lionel Jospin e a indignação da protagonista com a eleição de Sarkozy.

FICHA TÉCNICA



Título Original: Le Nom des Gens
Gênero: Comédia
Duração: 1:45
Direção: Michel Leclerc
Elenco (Protagonistas): Jacques Gamblin (Arthur Martin) e Sara Forestier (Bahia Benmahmoud)